Dizem que o ator não escolhe o personagem - mas sim o contrário. No meu caso, é algo parecido. Ok, não sou ator (nem tenho a pretensão de ser) e nenhum personagem me escolheu. Mas acredito que o jornalismo me escolheu. A influência vem de berço, ambos meus pais são jornalistas (mas que hoje não exercem a profissão).
Assim, cresci ao redor de livros, música, cinema, quadrinhos e, claro, jornais, revistas, telejornais e rádio. E trabalhar com algo que tenho facilidade - a escrita - e abordando temas que convivo diariamente desde pequeno é algo que me atrai (e ganhando para isso, então, melhor ainda).
Mas, então, por que diabos fui estudar administração? Bom, a resposta veio única e exclusivamente da vontade de ganhar dinheiro e ser independente. Mas o tiro saiu pela culatra - me formei e emendei uma segunda faculdade, ainda morando e sendo dependente dos meus pais. A diferença entre ambas foi brutal. No primeiro curso, tive mais de 10 dependências. No jornalismo, esse número é zero.
O clique para mudar de área veio logo no meu primeiro estágio como administrador. Tinha uma boa bolsa-auxílio, e estava para ser efetivado. Mas repentinamente a gerente do meu setor foi demitida. Tinha grande admiração por ela, que pacientemente me ensinou e incentivou muito. Chorei copiosamente no dia em que ela anunciou a saída da empresa. E nunca quis passar por aquela situação de novo. Sabia que, se esse comportamento corporativo era inevitável, pelo menos queria me sentir realizado por fazer algo que gostasse.
Ao longo destes 27 anos, percebi que a pessoa não consegue mudar sua essência. Sempre fui o cara alto, magro e que ia bem nas redações escolares. Nos esportes nunca fui acima da média (minhas atuações dependem da minha motivação e do meu humor), mas sempre soube as escalações dos meus times preferidos. Com as mulheres, o sucesso nunca foi igual ao que faziam meus amigos, mas nem por isso deixei de admirar a beleza feminina por meio dos veículos de comunicação (não é mesmo, Playboy?) e de festas, bares, parques. O mesmo vale para a música. Nunca fui um Eric Clapton na guitarra, mas sempre escrevi algumas canções. Queria passar aos outros a emoção que sentia ao ouvir as músicas que mais gostava.
A gerente citada acima me elogiava mais pela cultura que tinha, pelo fato de falar inglês, pela vontade de aprender e fazer o meu melhor do que pelo desempenho em si. Lembro-me do dia em que ela queria tinha uma lista de livros (não me recordo o motivo) em mãos. Peguei e fui falando "li esse, bem legal. Li aquele, razoável. E aquele, aquele outro". Ouvi um sonoro "nossa, como você é culto."
Claro que ao longo dos anos tive que aprender a ser eficiente também no trabalho. Para mim, entregar projetos no prazo é fundamental. Fazer algo diferente do que o costume (dentro de limites aceitáveis) me motiva. E a possibilidade de crescer, morar sozinho, ser independente para viajar à praia num sábado e voltar no mesmo dia é algo que, quando surgir, vou agarrar com unhas e dentes.
Não me arrependo das escolhas que fiz. Não quero apagar as lembranças da minha memória. São por elas que hoje tenho certeza do que quero fazer, independente se for profissionalmente ou por hobby. Não sabemos o dia de amanhã. Mas ainda temos o poder de trilhar o próprio caminho.

